
Pesquisadores da UFG obtêm Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese
Foram contemplados trabalhos sobre o Rio São Francisco e sobre mercadorização de serviços sociais
Texto: Versanna Carvalho
Fotos: arquivo pessoal e reprodução do YouTube @CapesOficial
A entrega do Prêmio Capes de Tese 2023 foi realizada na quinta-feira (14/12) em uma cerimônia híbrida, em Brasília, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação (MEC). A Universidade Federal de Goiás (UFG) marcou presença na edição deste ano com uma tese de doutorado que recebeu Menção Honrosa na área de História. A tese em questão é do egresso do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Faculdade de História (FH/UFG), Flávio Dantas Martins, intitulado “O Rio São Francisco na história: o uso público da memória e o projeto de meio técnico-científico (Brasil 1930-1950)".
A tese de Flávio foi orientada pelo professor da FH UFG, Jiani Fernando Langaro. O docente afirmou ter ficado “muito feliz com esse resultado”. O autor também falou sobre a importância deste reconhecimento. “Significa muito pessoalmente, visto que sou da primeira geração de uma família de camponeses e artesãos de ascendência africana e indígena do sertão baiano a acessar a universidade. Mas acredito que também é importante o reconhecimento da qualidade do saber científico e acadêmico produzido em instituições universitárias fora do eixo Sul-Sudeste, seja a UFG onde a tese foi desenvolvida com grande contribuição coletiva de docentes e colegas estudantes, seja na Universidade Federal do Oeste da Bahia, que me concedeu a licença remunerada para realizar a pesquisa”.
“Na tese ‘O rio São Francisco na história’ eu demonstro que durante o debate sobre desenvolvimento econômico dos sertões na primeira metade do século XX se produziu uma memória sobre esse rio como lugar central da história e identidade nacionais, o que era uma ótima justificativa para projetos que investissem recursos públicos para seu aproveitamento econômico”, relata Flávio, que comenta que naquele tempo não foram realizadas audiências públicas “nem nas democracias, nem nas ditaduras de Vargas e de 1964. Os interesses das populações que seriam afetadas pelas grandes obras não foram considerados”, resumiu.

A pesquisa mostra que “por um lado, houve uma questão política de exclusão dos habitantes do vale do São Francisco do debate e processo decisório que se baseou num consenso que se sustentava, por sua vez, numa versão da história nacional e regional. Por outro, houve um efeito dentro da forma de se escrever a história: foi preciso aproximá-la da geografia e das ciências sociais para que ela tivesse relevância no debate sobre desenvolvimento do país, antes dos primeiros cursos de graduação em história em universidades”.
Professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia, Flávio falou um pouco sobre a ideia de tratar desse tema no doutorado realizado na UFG. “O Programa de Pós-Graduação em História da UFG possui uma linha de pesquisa sobre memória e escrita do passado que dialogava muito com o projeto de pesquisa. Além disso, havia a intuição, confirmada no curso, de que estudar a relação entre espaço e história do Brasil era algo que precisava ser feito num lugar onde a reflexão sobre hierarquias regionais se impunha. O Brasil Central só foi considerado recentemente um lugar integrado econômica e politicamente ao chamado Brasil litorâneo. Na maior parte da história, Goiás era “sertão” e faz grande diferença pensar meu tema num programa de pós-graduação que lida com essas questões no cotidiano”.
Serviço Social
A UFG ainda foi destaque com a tese do docente do Câmpus Goiás, Alisson Cleiton de Araújo, defendida na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A pesquisa “A mercadorização dos serviços sociais públicos: tendências contemporâneas e inflexões no exercício profissional de assistentes sociais”, recebeu Menção Honrosa na área de Serviço Social. A tese analisa a tendência contemporânea de captura dos serviços sociais públicos à lógica do capital. Trata-se de um processo em curso de subsunção da gestão e execução das políticas sociais e funcionamento das instituições públicas no Brasil aos imperativos da iniciativa privada. “De modo particular, analisa as implicações desse novo fenômeno no exercício profissional de assistentes sociais, buscando apreender os desdobramentos no perfil profissional, nas relações e condições de trabalho, no conteúdo e organização do trabalho de assistentes sociais e inflexões na direção social estratégica da profissão”, afirmou.

Dentro dos fatores observados no processo seletivo (a originalidade, a relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e social do País, a qualidade e quantidade de publicações decorrentes da tese, sua metodologia, redação, estrutura e organização do texto) do Prêmio Capes de Tese, Alisson acredita que o principal critério analisado no seu trabalho tenha sido a originalidade e relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e social do País.
“Esse destaque decorre especialmente da natureza inédita do fenômeno social em questão e da processualidade ainda latente de ampliação das parcerias público-privadas no âmbito das políticas sociais brasileiras. Ademais, destaca-se a ausência de investigações que permitam desvelar as consequências institucionais, políticas e sociais para a prestação dos serviços públicos à sociedade”.
Para o pesquisador, a Menção Honrosa obtida pela sua teste, “trata-se de um reconhecimento importante em tempos tão áridos e de reconstrução democrática no País, ainda marcados pela negação da ciência, pelo ataque à produção de conhecimento científico e pela tentativa de desacreditar a árdua tarefa de realizar pesquisas no chão histórica das universidades brasileiras”, afirma Alisson.
Flávio também comentou que a originalidade do seu trabalho pode ter chamado a atenção da banca. “Acredito que há algo de original no aspecto interdisciplinar, já que há um diálogo muito grande com o geógrafo Milton Santos e com autores da filosofia. Alguns autores clássicos da discussão sobre memória estudaram sociedades urbanas e industriais e não serviam para o tema. E certamente ser de uma família de grandes contadores de histórias onde a narrativa oral é muito forte contribuiu para escrever um texto capaz de fácil comunicação com o leitor. Reuni essa herança da oralidade com o que a professora Elizete da Silva me ensinou sobre escrita quando entrei na graduação em história”.
O autor da tese sobre o Rio São Francisco finalizou dizendo ter tentando evitar um texto tradicional. “Coloquei, onde foi possível, pequenos causos, como o do estudante e jogador do Botafogo que teve sua visão do Brasil transformada após viajar pelo rio São Francisco, o do comunista que fugiu para o sertão para ficar invisível para a polícia de Vargas, o latifundiário negro que se orgulhava de sua mestiçagem, mas entrevistou o chefe alemão do partido nazista no Brasil ou o do compositor e folclorista potiguar que ficou quatro meses coletando músicas no sertão baiano. Isso tem efeitos na metodologia e na interpretação que permitem uma visão ampla e o questionamento de uma história única em prol de uma história plural”.
Números
Segundo a Capes, foram entregues 49 Prêmios Capes de Teses, um por área de atuação. Outros 98 doutores tiveram suas teses agraciadas com Menção Honrosa. Ao todo, 1.469 teses participaram da competição. O maior número em 18 edições realizadas.
Os organizadores reforçam que são “reconhecidos os melhores trabalhos de doutorado defendidos em programas de pós-graduação brasileiros. Dentre os 49 premiados, três receberam o Grande Prêmio Capes de Tese, um de Humanidades, outro de Ciências da Vida e um de Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar.
Acesse os conteúdos das duas teses clicando em seus respectivos links: “O Rio São Francisco na história: o uso público da memória e o projeto de meio técnico-científico (Brasil 1930-1950)" e “A mercadorização dos serviços sociais públicos: tendências contemporâneas e inflexões no exercício profissional de assistentes sociais”.
Para assistir à transmissão da solenidade de premiação, clique aqui.
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Fonte: Secom UFG
Categorias: Notícias Orgulho de ser UFG FH Câmpus Goiás