Mulher maravilhosa

Pesquisa analisa representações nas histórias da Mulher-Maravilha

Em 14/06/17 14:04.

Estudo detalha ambiguidades da super-heroína que ora tem posicionamento feminista, ora reforça padrão patriarcal

Texto: Camila Godoy

A maior super-heroína de todos os tempos teve sua estreia nas telonas no início deste mês, 75 anos após sua criação nas páginas das histórias de quadrinhos (HQs) da editora DC Comics. Tardia, a adaptação cinematográfica da Mulher-Maravilha reacendeu discussões sobre a representatividade feminina na cultura pop. Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) analisou essa questão e concluiu que, apesar de substituir o papel da donzela em perigo pelo da guerreira invencível, por muitas vezes a Mulher-Maravilha reproduz valores sociais que reforçam a ideia de inferioridade da mulher e dependência em relação ao gênero masculino.

O estudo, realizado na Unidade de Letras e Linguísticas da Regional Catalão da UFG, pela pesquisadora Jaqueline dos Santos Cunha, sob orientação do professor Alexander Meireles da Silva, observou as características das narrativas de HQs referentes à Mulher Maravilha de 1941 a 1943, período que compõe a Era Dourada dessas produções. Segundo o trabalho, a super-heroína é produto criativo de William Marston, que idealizou uma personagem como uma espécie de propaganda psicológica sobre o tipo de mulher que viria a governar o mundo: bela, doce, altruísta, patriótica e forte.

Ambiguidades

Criada por homens, a super-heroína realmente foi retratada como forte, inteligente, culta e independente. Além disso, ela colabora para a emancipação de outras mulheres dentro da obra, aconselhando-as também a serem assim. Em contrapartida, influenciada pela ótica patriarcal que deu vida à personagem, a história apela para o prazer visual, com diminuição de roupas de Diana ao ser transformada em Mulher-Maravilha, e trata outras personagens mulheres como objetos sexuais. Segundo levantamento do estudo, em 26 histórias da Mulher-Maravilha, há 118 cenas de mulheres amarradas ou acorrentadas, sendo que 54 delas retratam a própria super-heroína, além de sete cenas de agressão a mulheres.

Segundo o professor Alexander Meireles da Silva, por muito tempo as HQs perpetuaram em suas páginas a visão que a sociedade tinha da mulher, retratando-as como belas, sensuais, par romântico do herói ou desempenhando profissões usualmente enxergadas como sendo ligadas ao feminino, como por exemplo, de secretárias e enfermeiras: “Isso só foi começar a mudar a partir dos anos 60 e 70, com a Revolução Cultural nos Estados Unidos. Hoje, as mulheres ainda lutam para criar novas personagens femininas e redefinir outras já consagradas, de modo a refletir a posição da mulher atualmente. Porém, ainda há muita resistência e machismo no meio, tanto por parte de editores quanto por parte de leitores”.

Filme

Dirigido por Patty Jenkis, o filme Mulher-Maravilha conta a história de Diana, a princesa de uma paradisíaca ilha, treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, que descobre uma guerra sem precedentes no mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. De acordo com Alexander Meireles da Silva, a adaptação cinematográfica captou com perfeição a essência da personagem, mostrando que os problemas da sociedade passam pela falta de equilíbrio na relação entre homens e mulheres.

 

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