“Uma comunicação pública que não constitui a cidadania está falhando”
Jorge Duarte, expoente da área, destacou os riscos de personalismos no setor público
Texto: Caroline Pires e Kharen Stecca
Fotos: Carlos Siqueira
A Universidade Federal de Goiás (UFG) recebeu ontem, 11/6, um dos maiores expoentes da Comunicação do país, o pesquisador Jorge Duarte. A palestra foi realizada durante o 3º encontro dos Agentes de Comunicação da UFG. A figura dos agentes, instituída pela Política de Comunicação da UFG, reforça o papel estratégico desta área para a Universidade e estabelece, entre outras funções, esse servidor designado como o elo entre as Unidades Acadêmicas e Órgãos Administrativos com a Secretaria de Comunicação (Secom). Durante a atividade, foi destacada a importância de compreensão do conceito de Comunicação Pública para que as informações e serviços prestados sejam construídos de forma dialogada com a sociedade e que tenham sempre como prioridade subsidiar o cidadão para a construção da cidadania, evitando simples valorização de gestores. No período da tarde, os Agentes de Comunicação acompanharam oficinas específicas sobre sites institucionais, produção de notícias e redes sociais. Confira o álbum de fotos. Na ocasião, também foi lançado o Guia de Boas Práticas em Comunicação, produzido pela Secom.
Na parte da manhã, Jorge Duarte iniciou sua fala reforçando que, quando se trata de comunicação pública, é necessário retomar o óbvio: o cidadão precisa ser munido de informação para que consiga exercer a sua cidadania. Segundo ele, isso é especialmente importante no contexto da Universidade, “vocês não trabalham para a UFG, vocês trabalham para a sociedade brasileira e ela deve ser priorizada em todo o seu trabalho”, afirmou.
Atuando como servidor público desde a década de 90, ele destacou que quando trabalhou junto a presidência da república se surpreendia a ir a campo e perceber que as pessoas não sabiam de questões básicas, como o conceito de público. Ele alertou da importância de se realizar comunicação sempre a partir do público e da maneira como ele irá receber o conhecimento disponibilizados. No ano de 2011, ele foi responsável por elaborar o conceito de comunicação pública no Diário Oficial da União, onde reforçou que “a prática de comunicação pública não passa por divulgação de dirigentes ou autoridades".
Historicamente ele retomou que Getúlio Vargas que, ainda na Revolução do Estado Novo na década de 30, estabeleceu um modelo de comunicação que era embasado em propaganda de governo, controle e censura. Já depois da era de Juscelino Kubitschek, o Regime Militar se recuperou essa lógica de controle da comunicação não na perspectiva de valorização pessoal, mas de promoção do governo como um todo. “Isso está enraizado na cultura popular há muitos anos é só a partir da redemocratização em 1985 que essa realidade começou a mudar, mas, infelizmente, não foi desfeita essa perspectiva de que comunicador de governo serve para valorizar o governo ou as pessoas que o compõe”, destacou. Essa herança acaba promovendo estruturas que comunicam, mas não escutam e fazem com que se forje uma “comunicação pública que é usada como cultura, sem pesquisa de campo e acesso direto para entender as demandas e gerar uma real transformação social”.

Jorge Duarte é pesquisador, formado em Relações Públicas e Jornalismo, e trabalha na Embrapa desde década de 90
Essa situação tem ainda mais um agravante: o analfabetismo funcional do Brasil: 70% da população brasileira não consegue localizar informações explícitas em textos cursos, nem integrar informações. “O problema do Jornalismo é que não somos treinados para falar com essas pessoas. Acabamos falando para nós mesmos, uma porcentagem de 10% da população”. Ainda segundo os dados, 67% dos jovens brasileiros não sabem a diferença entre fato e opinião, 47% do brasileiros evitam noticias e 49% deles não acreditam em notícias. Com esse dados alarmantes, ele afirmou: “o brasileiro não conhece o Brasil” e defendeu a maneira como o desconhecimento da realidade desemboca na adoção de discursos populistas, “precisamos contribuir para ajustar essa realidade”.
Jorge Duarte apresentou também como exemplo o site do ministério do Trabalho e Emprego que, anos atrás, durante a semana do dia do trabalhador, apresentava majoritariamente informações de rotina do então ministro. A partir desses dados, uma pesquisa foi feita, por uma de suas orientadoras, constatando que na verdade as informações mais buscadas e acessadas se referiam a prestação de serviço e orientações para o trabalhador, em uma clara constatação da disfunção que grande parte da comunicação de entidades estatais presta. “As pessoas precisam saber dos seus direitos e não sobre quem fez ou faz”, como bom exemplo, ele apresentou uma pesquisa recente que constatou que 99% dos brasileiros conhecem o Bolsa Família, mas só 3% sabem que o responsável por gerir esse programa é Ministério do Desenvolvimento Social.
Hoje, se soma ainda a maneira como a comunicação pública é afetada por desinformação e algoritmos, em completa negação de fatos históricos e a promoção de ambientes hostis. Jorge Duarte defendeu que, sem acordos mínimos sobre sociedade não é possível avançar em busca do bem comum, “não é discutível se vacinação funciona ou não, com questionamentos como esse corremos hoje o risco de estruturas desmoronarem”.
Para enfrentar esse cenário, o pesquisador passou a apresentar dicas práticas para colaborar com a transformação dessa realidade. Sem nunca perder o foco no cidadão, ao atuar na comunicação pública deve-se estar consciente que não basta distribuir informação, “o nosso objetivo é ajudar as pessoas e não divulgar coisas. Vamos escutar e dialogar com o ambiente e sair do modo de emissão. Não fomos corneteiros de batalhão”. Ele criticou ainda a maneira como a comunicação costuma ser excluída do planejamentos e das estratégias, “sem isso não conseguimos nosso objetivo mais que provocar realmente transformações. Sem estratégias estamos à deriva”. O desafio, segundo ele, é saber trabalhar dessa maneira em meio a imprevisibilidade e romper com a separação entre as áreas da comunicação. “Precisamos assumir a legitimidade de ser uma área que lidera e não que chefia. Isso passa por capacitar, fortalecer a cultura comunicacional. Não podemos ser tão soltos sem propósito e coerência”.

Equipe da Secom organizou o evento, colaborando com a capacitação dos servidores de toda a UFG e a valorização da Política de Comunicação da Universidade
Abertura do evento
A diretora executiva da Fundação Rádio Televisão Educativa e Cultural (RTVE), professora Silvana Coleta, destacou o papel estratégico da instituição como fundação de apoio da UFG e o escopo de trabalho da instituição, que vai além da gestão de veículos, abrangendo a gestão de projetos de ensino, pesquisa, extensão e inovação tecnológica. Em sua fala, a diretora citou exemplos de impacto nacional, como o projeto Pro-Semeia, focado na formação de agricultores familiares, pesquisas de hidrogênio verde desenvolvidas em parceria com o governo alemão e a organização de grandes festivais culturais do governo estadual, como o Fica e o Canto da Primavera. A diretora geral da TV UFG, Vanessa Bandeira, destacou a relevância e o alcance da emissora, consolidada como a quinta emissora mais assistida em Goiânia e detentora da segunda melhor qualidade de imagem digital na região, alcançando mais de 3,4 milhões de pessoas em 46 municípios. Em sua apresentação, Vanessa enfatizou o papel da emissora na difusão de conteúdos voltados à educação, cultura e formação crítica. Ela incentivou os agentes de comunicação a utilizarem o canal para dar visibilidade a projetos de pesquisa e extensão, ressaltando que a parceria com a rede nacional TV Brasil permite que produções locais ganhem projeção em todo o país. Na cerimônia de abertura, os integrantes da mesa diretora reafirmaram o compromisso da UFG com uma comunicação pública ética, transparente e voltada para o cidadão.
A secretária de comunicação, Márcia Araújo, destacou o lançamento do "Guia de Boas Práticas em Comunicação" e o papel fundamental dos agentes como pontes entre as unidades acadêmicas e a Secretaria de Comunicação (Secom). A reitora Sandramara Matias Chaves enfatizou a importância da comunicação integrada para pautar a imprensa com resultados positivos da universidade. "A comunicação é fundamental para enfrentar as demandas da sociedade. Que todos possamos aproveitar essa oportunidade de qualificação", concluiu a reitora. A mesa também abordou a necessidade de rigor técnico e jurídico diante da proximidade do período de defeso eleitoral, enquanto a professora Silvana Coleta, da Fundação RTVE reforçou a importância das parcerias que garantem a qualidade da informação produzida pela universidade.

Reitoria destacou a importância de qualificação
Fonte: Secom/UFG
