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UFG concede título de Doutora Honoris Causa a Leodegária de Jesus

In 09/08/23 15:31 .

Professora, jornalista e poeta é a primeira mulher negra a receber o título da instituição

Texto: Mariza Fernandes

Fotos: Júlia Barros

No dia em que completaria 134 anos de idade, a jornalista, poeta e professora Leodegária Brazília de Jesus foi homenageada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) com o título de Doutora Honoris Causa in memoriam, em uma cerimônia marcada pelo sentimento de reparação histórica. Nascida em 8 de agosto de 1889 na cidade de Caldas Novas, Leodegária foi a primeira mulher a publicar um livro de poesia no estado de Goiás. A solenidade de entrega do título ocorreu nesta terça-feira (8) no Colégio Sant’Ana, na Cidade de Goiás, onde a escritora estudou desde a adolescência. O evento integra a programação de comemorações pelos 125 anos da Faculdade de Direito.  

Reparação histórica

Leodegária publicou seu primeiro livro, Coroa de Lírios, em 1906, aos 16 anos de idade, o que demonstra uma de suas principais características: a escritora era uma mulher de muita atitude e, por isso mesmo, ao concluir os estudos no Colégio Sant’Anna, tentou ingressar na então Faculdade de Direito, que posteriormente passou a compor a estrutura da UFG. Em razão da discriminação de raça e gênero, pois Leodegária era filha de um casal interracial, e ainda por perseguições políticas, a poeta foi impedida de ingressar no curso e teve que optar pelo magistério.

Em seu discurso durante a solenidade, a reitora da UFG, Angelita Pereira de Lima, disse que a concessão do título in memoriam é um pedido de desculpas a todas as mulheres que foram afetadas pela negativa ao ingresso de Leodegária na Faculdade de Direito. “Infelizmente, o tempo não nos permite reparar o que foi negado a ela, mas é uma reparação histórica para as mulheres negras, para a população negra brasileira”, declarou. Por ter tido esse direito negado, a escritora deixou de ser a primeira mulher advogada do estado de Goiás.  

Honoris Causa in memoriam

Leodegária foi a quarta mulher a receber um título de Doutora Honoris Causa da UFG. Suas antecessoras são: Cora Coralina (1982), Ana Maria Primavesi (2011) e Maria Sylvia Zanella di Pietro (2021). A honraria foi aprovada pelo Conselho Universitário da UFG (Consuni) em reunião extraordinária no dia 21 de julho de 2023. A proposta foi apresentada em conjunto pela Unidade Acadêmica Especial de Ciências Sociais Aplicadas (UAECSA) e pela Unidade Acadêmica Especial de Ciências Humanas (UAECH), ambas do Câmpus Goiás, e pela Faculdade de Direito (FD), do Câmpus Colemar Natal e Silva da UFG, em Goiânia.

UFG concede título de Doutora Honoris Causa in memoriam a Leodegária de Jesus 2
Estudantes do Câmpus Goiás formaram cortejo que conduziu o diploma

 

A cerimônia de entrega do título teve início com a leitura de poemas de Leodegária de Jesus por mulheres da Associação Mulheres Coralinas. Em seguida, um cortejo formado por estudantes negras do Câmpus Goiás da UFG foi acompanhado pela cantora Elenízia da Mata, primeira vereadora negra da Cidade de Goiás e uma das responsáveis pelo resgate da obra de Leodegária.

A mesa diretiva foi composta pela reitora da UFG, Angelita Pereira de Lima, a secretária de cultura da Cidade de Goiás, Goiandira de Fátima Ortiz Camargo, que representou o prefeito Anderson Gouveia, a diretora do Câmpus Goiás da UFG, Margareth Pereira Arbués, o diretor da Faculdade de Direito da UFG, José Querino Tavares, e a Secretária de Inclusão da UFG, Luciana Dias.

Leodegária, presente!

Em um discurso que buscou resgatar a importância histórica de Leodegária para a cena cultural e para a educação em Goiás, a secretária de inclusão da UFG, Luciana Dias, destacou o significado da homenagem para a histórica luta das mulheres negras. “Se para uma mulher, produzir literatura, arte, cultura, história, ciência ou política, significa lidar com imperativos fundados no patriarcado, que a situam em uma posição de inferioridade com relação aos homens, imaginem a carga de preconceito, discriminação e violências que essa mulher tem que lidar se ela for uma mulher negra. As mulheres negras experimentam discriminações acumuladas quando vivem em sociedades de base machista e racista. Importante destacar que quando uma mulher negra se movimenta toda a sociedade se movimenta com ela”, afirmou a secretária, parafraseando a professora, filósofa e ativista Angela Davis.

UFG concede título de Doutora Honoris Causa in memoriam a Leodegária de Jesus
Secretária de Inclusão da UFG, Luciana Dias

 

Luciana Dias falou ainda sobre como o título representa um reconhecimento à importância da escritora. “Significa reconhecer a gigantesca movimentação que sua poesia e sua complexa existência causaram no Estado de Goiás. Importa destacar que, por 48 anos, de 1906 a 1954, somente ela, dentre as mulheres versejadoras, publicou livros de poesia em Goiás. Significa abrir as portas da Universidade, que se coloca também em movimento recuperando uma história, movimentando e ativando uma memória, reconhecendo o valor e a nobreza de uma mulher que resistiu a cruéis processo discriminatórios, seja por seu pertencimento de gênero ou por seu pertencimento racial”. A secretária concluiu seu discurso afirmando: “Leodegária, presente!”

Memorial Leodegária Brazília de Jesus

O título de Doutora Honoris Causa in memoriam foi a primeira de uma série de ações encampadas pela UFG para valorizar a memória de Leodegária Brazília de Jesus. Ao final da cerimônia, a reitora da UFG anunciou a assinatura de um protocolo de intenções entre a UFG e a prefeitura da Cidade de Goiás para a construção de um memorial alusivo à obra de Leodegária.

“A UFG, a partir de hoje, será guardiã dessa história. Isso é de uma responsabilidade imensa. Trouxemos essa proposta para que possamos, UFG e prefeitura, cravarmos no coração da cidade, um memorial com o busto da Leodegária, para que essa memória fique sempre escrita para as pessoas que moram aqui, mas principalmente para quem virá e desconhece a Leodegária, para quem virá e poderá entender um pouco mais da luta e da história das mulheres resilientes que poderão atravessar séculos porque ousaram escrever, porque ousaram não se silenciar”, concluiu a reitora.

Fonte: Secom UFG

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